“Rimos e aguentamos”

            O Brasil era o país do futuro, criávamos sonhos e tínhamos esperança. O sistema educacional não funciona e nosso futuro é duvidoso. Já o presente… é simplesmente catastrófico.

            Uma boa forma de observar o que passamos não se resume em analisar os números e entender os gráficos (se ainda sabemos ou sequer aprendemos a fazê-los), mas compreender o momento cultural em que nos encontramos. Podemos fazer isso estudando o conteúdo das emissoras de televisão e de rádio e dos eventos que atraem maior número de pessoas. Essa análise pode revelar as mazelas do povo, suas necessidades, o que deve ser feito para ajudar e se o que tem sido feito não está piorando.

            Uma das novas atrações televisivas que se destacou foi o programa Ídolos da emissora SBT, seu conteúdo está fundamentado em uma competição musical que tem o objetivo de revelar uma pessoa que tenha qualidades para tornar-se um cantor: afinação, conhecimento musical e outras coisas que fazem parte do show business: presença de palco, escolha de roupa, movimentação do corpo, expressividade, etc. Seu objetivo é interessante, porém desvirtua-se no momento em que observamos o conteúdo geral do programa, as partes que chamam mais atenção e tem, muitas vezes ,a maior audiência não estão relacionadas com o vencedor da competição e com as qualidades das pessoas que foram até lá, o que ocorre é exatamente o oposto, pessoas comuns e sem conhecimento musical são analisadas pelo júri e desmoralizadas; suas vozes e afinação são criticadas, suas vestes, presença de palco, tudo é banalizado,discriminado e os telespectadores assistem, aplaudem o julgamento.

            A verdade é que um programa que parece criar uma oportunidade de vida para um povo carente como o brasileiro, mas na verdade tem em seu objetivo ganhar dinheiro através de humilhação é simplesmente doentio e cruel. Devemos ressaltar que o conhecimento musical fez parte da evolução do homem, muitos o colocam como um dos fatores para o desenvolvimento da fala e, tanto no passado como no presente, as civilizações preocupadas com a cultura de seus povos vêem na música um meio de desenvolvimento para o ser humano, esteticamente, artisticamente, para o individual e para a melhora do comportamento em sociedade. Na sempre lembrada Grécia, formadora de grande parte do pensamento Ocidental, as duas matérias iniciais, educação física e música, eram consideradas de extrema importância. A escala de maior preferência era a hoje chamada de frígio*, muito usada pela sua suposta perfeição. Outras escalas, de uma recorrência extremamente maior hoje em dia não eram usadas, algumas  nem conhecidas, o estudo da música e os instrumentos evoluíram muito desde aquele tempo, mas o respeito que havia desapareceu, a verdade é que um grego ficaria abismado com o que acontece: uma pessoa sem conhecimento musical, algo obrigatório a ser passado pelo estado, é desrespeitada, humilhada mas ao invés de acharmos isso absurdo, damos risada.

            Sendo a música e a arte algo inerente ao ser humano, não instruir uma pessoa é diminuí-la e ganhar dinheiro com isso é crueldade, o abismo. A situação que não parece estar melhorando nos faz crer que em pouco tempo outras partes do conhecimento, até mais importantes, também passarão a serem ridicularizadas publicamente em algum programa de perguntas e respostas (será que já não existe?) onde irmãos brasileiros terão seus conhecimentos precários julgados e talvez até riremos de sua condição. Não podemos! Não, não, não!

            Esses programas e tantas outras questões podem nos dar uma idéia real do que vivemos, no que vivemos e de nossa total despreocupação, é hora de rever o que sabemos e analisar as coisas que estão ao nosso redor, procurar entender, conhecer para não ser facilmente enganado, é hora de acordar e não aceitar mais esse tipo de desrespeito.

R.C.O.

2 Responses to ““Rimos e aguentamos””

  1. Roberta ^^ Says:

    Muito bom esse texto também.

    E brasileiro é uma desgraça mesmo. Não só musicalmente, mas socialmente… é normal ver mendigos na rua, para nós. Não achamos absurdo. É comum. E o que fazemos para mudar?
    Aliás, nós, individualmente, pouco podemos fazer. Tirar um ou dois mendigos das ruas não resolve nada… a única solução é exigir atitudes do governo. Mas a maioria dos brasileiros não está nem aí pro que acontece fora do “seu mundinho”. Da sua realidade. Até mesmo os mais pobres, visto que o atual governo dá “bolsa-esmola” por tudo que é motivo… assim, quem vai querer trabalhar/mudar de vida? Ganhar dinheiro pq é pobre é fácil… =P

    ohhhh raça ruim xD

  2. robsoncervera Says:

    Olá Roberta, obrigado por deixar sua opinião!
    Agradeço pela mensagem, mas gostaria entrar em defesa do povo brasileiro. Ele não é uma desgraça, o ser humano é a constante busca e pode equivocar-se de vez em quando. Acredito que cada povo possua peculiaridades que devem ser assimiladas pelos outros e o brasileiro certamente possue muito a ensinar (a forma como agrega outros povos e culturas), mas também a aprender (a dedicação do povo oriental que tanto me fascina, o respeito à liberdade de franceses e outras grandes repúblicas, a incrível capacidade de análise e organização dos americanos).
    Nossa suposta despreocupação com as coisas é aterrorizante sim. Vivemos vendo situações e atos que deveriam nos tocar, mas parece que criamos uma barreira contra tudo isso.
    Parece… mas talvez esses fatos nos toquem e não haja despreocupação mas sensação de impotência. Achamos que os atos solucionadores estão acima de nós, de nossas vontades quando na verdade somos pessoas que devem se instruir para sustentar uma opinião e ter maior certeza e responsabilidade em nossos atos.
    Esse blog faz parte desse ideal: a busca de entendimento para o melhor desenvolvimento .Espero que continuem enviando mensagens.
    Abraço a todos!
    Criticai-me!

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