O destino de Lisa C. Brão Populo.

             Não era nova. Não era idosa também, mas sua postura era lamentável. Tinha vários outros sinais de envelhecimento e nenhum a elevava. Sua passividade mofenta certamente era o pior de todos.  Tudo isso, que fique bem claro, não estava diretamente relacionado a sua idade, mas vinha da preocupação e da insegurança de quem tivera sua antiga maior desculpa transformada em inquisitora e não via formas de lutar. Seu carrasco era cruel, inatingível, imutável e justo; ele era o tempo e Lisa só poderia mudar a si mesma agora: para triunfar ou agonizar até o “nada”. Tinha medo.

            -Lisa, o chefe está te chamando.

            -Deus! O que será que quer agora?

            -Vá logo querida! Ele parece bravo!

            -Estou indo – diz enquanto se afasta, contemplando os frisos do piso.

            -Idiota – pensa a companheira.

            O caminho até o editor chefe é longo, mas ela não se importa em diminuir o passo. A verdade é que sempre foi enganada e desiludida.Calava-se, afinal, um emprego medíocre era melhor do que “nada”. Sempre odiou os heróis idealistas: “quem é que com ’tudo’, para obter pouco mais do que a morte luta?”. “Alguém com sonhos” respondia agora. Nada era claro. “Idiota”, resmungou baixinho.

            -Olá querida! Como vai a minha escritora predileta? – Perguntou paternalmente e “Não muito bem” foi a sua resposta – Como assim? – “Dor de cabeça”; isso o fez rir.

            -Tome um comprimido. Chamei-a para a elogiar. Você é o motor da empresa Lisa.

            A moça fingidamente  alegra-se.

            -Sério! Esta editora só sobrevive com suas histórias infantis: belas, alegres e despreocupadas.

            Tudo vinha para reforçar os pensamentos que floresciam e como novas pétalas de rosa seu rosto ruborizou-se: vermelho… vermelho sangue. O tempo deu seu gracejo e Lisa explodiria…

            -Somos um só. Querida! Sou a conseqüência inevitável de você – o chão tremeu e uma multidão levantou-se brandindo suas espadas em pura fúria – Antes que eu me esqueça – disse o chefe levantando-se também – Você terá um aumento no próximo mês.

            A fúria tola perdia o alvo, as espadas enfrentavam-se e perfuravam um único peito, o sangue começou a escorrer e o tempo perdeu-se em um canto.

            Saiu da sala calada. O sonho caiu. O ideal foi trocado por um punhado de dinheiro e, naquela noite, Lisa Brão Populo morreria para que, no próximo mês, apenas com o corpo, seu chefe voltasse a ter o que queria.

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