Alguma vida.

 

Papai? Mamãe? Gritei com uma voz de barítono pouco acostumada. Pigarreei, chamei-os novamente, mas logo percebi que teria de pegar o jornal que há pouco me acordara. Bendito entregador desastrado, demorei a perceber que foi sua despreocupação que destruiu minha rotina.

            Procurei o cereal matinal sentindo certa vertigem vendo meus pés lá embaixo tão desengonçados. Não encontrando tal tipo de desjejum, contentei-me com um café bem forte , torradas e peito de peru. Levantei e fui à procura do material escolar, após algum tempo, olhei no relógio e notei o quanto já estava atrasado. Coloquei o paletó, apertei burocraticamente a gravata, alcei a maleta de processos que tanto procurara e bati sistematicamente a porta atrás de mim. Levantei a mão para o último “jatônibus” da manhã quando me lembrei do pouco usual despertador.

            Dei meia volta e procurei-o no jardim. Acabei por encontrá-lo em uma falha entre a parede pré-moldada e o gramado sintético. Xinguei desgraçadamente o pobre do jardineiro e aproveitei para continuar com uma bela seqüência de insultos ao motorista do coletivo que ao longe se distanciava. Tentei alcançá-lo enquanto o encaminhava ao diabo, mas, longe de um exemplo de vigor físico, parei para descansar a barriga na guia mais próxima.

            Arfando e com a cabeça prestes a se comprimir em mais pensamentos sórdidos, abri o jornal para descontrair. Lembro-me aqui de dar um conselho aos leitores: jamais abram um diário com tal intenção, ou, se fizerem, cuidem para que seja a página dos quadrinhos, não que menos sadismo seja necessário para achar ali alguma graça. Li qualquer notícia ordinária com sua habitual mudança de números e nomes e preparei-me para levantar. Foi quando vi.

            Não mais em seu belo azul nos informando em branco puro, mas no cinza da penumbra jorrando vermelho a luz ofuscante. A placa da minha infância, informando que na Rua dos Colibris os habitantes das casas moravam, mudara e mostrava agora, tão poeticamente como uma expressão algébrica, que definhávamos em negras alcovas com cercas e câmeras na Rua YN-150.   

            Fechei os olhos na tentativa de voltar ao sonho de uma vida, mas os abri novamente com medo de perdê-la por inteiro. Tudo mudara, mas só naquele momento percebia. Meus pais há muito já não moravam mais comigo e aquela voz grave não era tão incomum para um homem de um metro e noventa, altura vertiginosa para alguém que nem percebeu que crescera… e engordara, perdendo boa parte da saúde que tentava recuperar tolamente comendo torradas com peito de peru. Mas o pior de tudo era o cafezinho matinal, aparentemente despropositado, mas que me fazia passar o dia com os olhos abertos, que só se fechavam com malditos calmantes.

            Mudei. De emprego, de rua, de vida. Casei-me e tive filhos; sobre essa fase só isso direi, pois não caberiam tantos fatos e sentimentos em tão poucas linhas de que disponho. Acontece que, infelizmente, tal lucidez não durou; comecei a me debilitar pela aparência repetitiva dos fatos,( tolice, talvez eu estivesse acostumado com a escuridão, o tão simples fechar de olhos) passei a não entender o valor do que tinha e o meu inalienável poder de decisão quanto a não me entregar à rotina.

            Assustei-me, e como um depressivo que consome seus remédios para não ser consumido ou um insone que ingere a sua cafeína para não dormir de dia, fugindo do real problema e encontrando em qualquer desespero a solução, comecei a ler. Toda noite lia um livro e cuidava para terminá-lo apenas quando tinha tempo para começar outro; outro diferente: da ficção científica para novelas de cavalaria; de um doutorado a um livro infantil. Meus livros, meus remédios, meu desespero. Não me lembro quanto tempo demorei a voltar a tomar café, mas, assim que me entreguei a ele, me entreguei aos livros e as malditas torradas com peito de peru, e enquanto eu lutava para salvar a minha vida, eu voltava a dormir.

            Querida? Filhos? Chamei com o máximo de força que consegui e revelei minha voz já cansada. Tive como resposta o aperto de mão firme do homem sentado ao lado de meu leito e os quatro olhos marejados de lágrimas de meus dois filhos já crescidos.

            Foi, dessa vez, mais fácil lembrar-me dos acontecimentos. De como eu cai progressivamente na rotina mortificante enquanto meus filhos sóbrios tentavam segurar a família que sucumbia. Da morte precoce da esposa do marido morto, completamente ausente. De outras coisas também, muitas sem sentido, mas , principalmente, do motivo que me faz escrever nestas últimas poucas linhas a minha vida inteira: espero que elas sejam o jornal despertador para quem as lê e que viva conscientemente, desfrutando dos momentos como desfrutei de alguns, que são os únicos com que realmente me importo. Adeus!

 

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